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Empoeirada

Sei lá, eu gosto de coisas velhas. Revistas velhas, por exemplo. Devorei esse final de semana uma Hype de agosto de 2004. Antiga? Nada. As melhores matérias foram uma lista de álbuns de 1994 e uma entrevista com Morrissey.

Não que eu nunca tivesse percebido isso, mas sim, sou uma velharia ambulante. Ouço bandas antigas, leio livros antigos e vejo filmes que já saíram de cartaz há muito tempo. Acho que a produção cultural é imortal e gosto de dar um tempo, uma distância, para certas coisas. Mas isso faz de mim uma pessoa meio démodé, não?

Bem, tanto faz. Hoje foi um dia horroroso, ontem foi um dia péssimo e eu não tenho muitas esperanças sobre amanhã.

A entrevista com Morrissey está bárbara, quem sabe eu fale dela aqui outra hora. E falando nele, uma homenagem a essa nuvem negra que não me larga:

Faísca atrasada

Minha casa nunca foi musical, nunca tivemos o hábito de ouvir música. Por isso jamais pensei em investir meus trocadinhos de infância (ganhos, e não tenho vergonha disso, à base de vender bananas, chuchu e ovos pela vizinhança) em discos. Por isso, na adolescência, não tinha como conhecer as novidades. Os amigos trocavam LPs e aí sim pintava a vergonha de oferecer os Rolando Boldrin do meu pai. Sendo assim, ficava só no que passava nas rádios.

Passou-se o tempo mas eu ainda não me libertei da inércia musical. Veja bem, eu não sou resistente às novidades, apenas fico no estado que estou. Explicado tudo isso, peço desculpas por só agora conhecer a MARAVILHA que é Amy Winehouse. Ela é louca, ela é maluca, ela é drogada, mas foda-se, quem não é? E mais que isso: quem pode esquecer essa voz e esse olhar?

Ok, eu fui a última a conhecer e, por isso, mando a peça mais pop dela, a música anti-reabilitação, que saiu até no Multishow. Mas YouTube é YouTube e você vai conseguir navegar por outras canções – e outras coisinhas mais.

Primeiro, o clipe excelente, indo do submundo ao quarto de manicômio. Adoro pensar em sapatos: brancos no quarto imundo, verde nas escadas, vermelhos no consultório do psiquiatra e pés descalços na internação:

Agora ao vivo, porque ela é foda mesmo:

E Fuck me pumps, outro clipe maneiríssimo. Será que no final dele ela vai para Rehab?

When you’re facing a loaded gun, what’s the difference?

Quando Martin Scorsese levou o Oscar de direção e filme por Os Infiltrados eu pensei: lá vai mais um prêmio pela obra que a Academia distribui de vez em quando. Na verdade eu não acreditava que Scorsese tinha feito um filme que podia ganhar o prêmio máximo do cinema comercial. Tudo por conta de um certo preconceito que eu criei ao longo dos anos: sempre disse que me faltavam, literalmente, culhões para gostar dos filmes dele. Explicando, acho que ele faz filmes com temáticas tipicamente masculinas, por exemplo a lealdade entre homens, assuntos que meio que fogem do meu conhecimento. Além disso, os filmes são nova-iorquinos, ficando a meio caminho – geográfico e estético – dos cinemas europeu e hollywoodiano.
Mesmo assim aluguei Os Infiltrados – sim, eu ainda sou daquelas que não baixa filme na internet. E pow! Soco no queixo! Me conquistou do princípio ao fim. Veja o trailer para relembrar:

Filme antigo, de sucesso, todos já sabem a história, todos já devem ter suas opiniões, então apenas alguns apontamentos. Primeiro, sobre o elenco:

- Jack Nicholson nunca, nunca, nunca, nunca deixará de ser Jack Torrance.
- Matt Damon é perfeito para o papel de “eu sou um idiota”, mesmo quando ele é um idiota com sorte e faz você morrer de raiva.
- Leonardo DiCaprio tem a pegada mais sexy que eu já vi no cinema nos últimos anos – eu quero ser a Gisele Bündchen!!!
- A despeito de tudo e de todos, eu amo Mark Wahlberg.

Agora alguns apontamentos sobre o filme e não, eu não estou nem aí se você não viu:

- Amei a gravata e o robe de oncinha do Frank Costello!
- Maravilhoso o contraponto entre a vida de rei do malvado e a vida de cão do bonzinho para cada um entrar no mundo a que não pertence.
- Se o Tarantino usa o sangue de uma forma lúdica, o Scorsese usa o sangue de uma forma chocante.
- Tem que ser muito macho para jogar o Martin Sheen do sexto andar de um prédio – e essa é uma hora em que o sangue choca.
- Duas cenas que eu vou guardar para todo o sempre: a da primeira ligação de celular entre Sullivan/Costigan e a do elevador. A primeira, tensão máxima. A segunda, fator surpresa.
- Adoro filmes em que não sobra ninguém – ou quase ninguém.

Ah, claro, e é impossível não deixar de falar na belíssima, eletrizante e muito bem mandadada trilha sonora. Uma pena que o álbum não traga todas elas.

Update: Eu achava que a última música que toca no trailer aí em cima não estava no álbum, mas está. A Raquel e o Danilo , do Volume, que deram a dica. É Comfortably Numb, do Pink Floyd. I love YouTube:

O que se tira disso tudo? Que vou ter que me render e ver mais filmes de Scorsese para ter certeza que não deixei passar nenhuma outra maravilha.

Em tempo: não sou idiota a ponto de não respeitar ou de minimizar o trabalho dele, apenas ressalto a falta completa de afinidade.

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