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Dia 30 de dezembro – Natal

É assim: sou católica não-praticante, então não tenho aquele sentimento de que Natal é o nascimento de Cristo. Também não tenho mais Papai Noel, mas confesso que amo ganhar presentinhos.

Natal para mim é família. É jantar juntos uma comida especial e todo mundo olhar para todo mundo com um olhar diferente, com uma nostalgia boa. E ver os pequenos e se divertir com eles. E ver alegria no abrir dos presentes e tentar montar as coisas juntos. E o lance dos presentes é muito legal porque não é aniversário, quando tudo é só pra um, é quando todos ganham alguma coisa realmente espetacular. E essa sintonia, essa alegria, isso sim para mim é Natal.

Então se no dia 24 eu passo sozinha – porque as crianças não estavam e eu trabalhava no dia 25 – eu passo só mais um dia sozinha, com um jantar mais cheio de frescura.

E estou escrevendo isso só porque pessoas ficaram preocupadas. Eu agradeço a vocês essa demonstração de carinho, sério mesmo! Mas a preocupação não procede, porque eu não passei o Natal sozinha.

Meu Natal será amanhã, quando os pequendos voltarem. E vai ser liiiiiiiiindo!!!

Só para constar

No ano passado a Megui estava por aqui em dezembro. Além disso, meu Natal foi com as crianças. Esse ano, nem um, nem outro.
Ainda não comecei a chorar, mas essa saudade me dói.
Podia ser um ano um, um ano outro, assim eu não ficava tão triste, né?

André, qual é o seu maior sonho?

A idéia é fazer uma entrevista a cada aniversário, no melhor estilo Anna, dos 6 aos 18, de Nikita Mikhalkov. Não bastasse eu ter atrasado a filmagem em dois meses, a pouca luminosidade e as configurações erradas da câmera inutilizaram o material.

Mesmo assim, essa parte é tão absurdamente boa que vai com baixa qualidade e tudo:

Parou!!!

Acordei com um silêncio absurdo em casa. Para acabar com ele, acordei os dois monstrinhos. Mesmo assim, silêncio. Muito silêncio.
Me arrumei com silêncio.
Gritei para colocarem os uniformes com silêncio.
Ouvi algazarra no quarto com silêncio.
Coloquei água para ferver com silêncio.
Só quando olhei para as bananeiras no jardim que me dei conta: a chuva tinha parado.
Estou com um sorriso inexplicável na cara.

E ontem o Deco deu uma explicação para essa chuva toda:
- Mãe, chove quando Deus chora. As gotinhas são as lágrimas dele.
- Poxa, Deco, então Deus tá mal, hein? Chorando desse jeito…
- Ele deve estar muito triste com as coisas erradas que andam fazendo por aí, mãe. Estão degradando a terra. Ele também deve saber que o Dário construiu um shopping no mangue, em cima das casas dos caranguejos.
- ….

Modernidade ou decadência?

As crianças resolveram do nada que eu devia arrumar um namorado. Não satisfeitas, resolveram listar os possíveis titulares do cargo. E foram citando nomes. Refutei um a um com argumentos mais sólidos do que o sincero “não dá liga”: ou era casado, ou era gay.

Pra dizer bem a verdade, na maioria das vezes, o candidato era os dois.

Um agradecimento e um conselho

Quero registrar um “muito obrigada” ao meu vizinho que logo cedo colocou Fábio Jr. cantando Pai a todo o volume. Assim sendo, não esqueci – de novo – de ligar para o meu velho no Dia dos Pais.

Ele fica o dia inteiro rondando o telefone. Só sai de perto quando todos os filhos ausentes ligam. Uma vez eu esqueci de ligar. Quando minha mãe telefonou à noite para falar que ele tinha ido para cama mais cedo, todo tristonho, meu coração sumiu. A verdade é que ele ficou muito mais sentimental depois do derrame e eu ainda não acostumei. Coisas para as quais ele dava valor zero antigamente, como uma ligação no dia dos pais, agora têm todo o valor do mundo. Certo ele, esses pequenos gestos aquecem a alma.

Quanto ao conselho, é voltado ao mesmo vizinho. Não custava ter baixado o volume, ou mesmo desligado o aparelho, quando a música acabou, né?

Já pensou em ver Star Wars só com Chewbacca e R2-D2 e sem legenda?

O Deco já.

Reforçando raízes

Minha tia, irmã da minha mãe, comemorou 50 anos de casamento no sábado passado. Fui na festa, uma festa típica de Gaspar: comida, bebida e música à vontade no sábado e rescaldo no domingo.

Momento memorável
Minha vó se olhar no espelho depois de se arrumar. Faz uma careta e desdenha: “Credo! Pareço uma velha de 80 anos!”. Ela tem 93.

Reflexão inevitável
Jamais farei 50 anos de casada. Nem que eu arranje um marido agora, duvido que eu consiga agüentar alguém que não seja um dos meus filhos por muito tempo. Já acho um sucesso ter um relacionamento de quase 10 anos no currículo. Será que se eu arranjar mais quatro e juntar todos eu consigo uma festinha assim?

Shiny happy people
A família da minha mãe é espetacular. Formidável mesmo. Meus primos são as pessoas mais unidas que eu conheço. Todos os filhos de meus tios de Gaspar têm uma ligação entre si invejável. Invejável mesmo, porque a minha lá em casa não é das piores, mas não é nem um pouco parecida com a deles. E são ultra-mega-hiper alegres. Não consigo me sentir completemente pertencente à família, mas tenho o maior orgulho de poder dizer que faço parte dela.

Parem as rotativas!

Esses são os meninos do Musical Gaivota. Eles tocam algo entre música gaúcha e sertaneja modernetes. Enfim: dancei com saia rodada e salto fino entre 23h e 5h. Meus pés doem. Estou feliz. Acho que vou começar a freqüentar bailões…

Coisas que só acontecem na minha família

Minha vó foi para o hospital. Soube que uma úlcera perfurou e aí saquei que já era. Ledo engano: devia parar de ler literatura da década de 50 para me atualizar quanto a probleminhas de saúde que levam os outros para o beleléu.

Ela foi medicada, cauterizaram a ferida no estômago e depois passou três dias em observação. Assim como crianças, idosos exigem acompanhante em tempo integral, houve um revezamento de familiares. Minto: ela é de outra época e sente uma vergonha inominável de que outras pessoas vejam as vergonhas dela, principalmente da família. Jamais permitiria que filhas ou netas ou sobrinhas trocassem um fraldão. Aliás, jamais permitiria que lhe colocassem um fraldão. Mas como não estava em condições de fazer suas vontades, deixamos que alguém que não fosse da família passasse a primeira noite com ela. Assim, não é da família porque não é do sangue, mas trabalha com minha mãe há um bom tempo.

Na primeira noite, enquanto a acompanhante cochilou, a velhota arrancou o soro e saiu. Foi resgatada na rampa. Na segunda noite, minha tia saiu do banheiro a tempo de pegar nosso maracujazinho na porta do quarto.
E o tempo todo murmurava:
- E a Trude, aquela boba. Me colocou aqui para roubar o Paulo de mim.
Pára tudo: quem é Trude e quem é Paulo?

Trude é minha mãe, na verdade Valtrudes. Val para o mundo, Trude para a família. Paulo é meu pai.

Seria uma mãe com ciúmes da nora?

Não. Paulo é o genro. Minha vó Adélia, mãe de minha mãe, foi morar com meus pais há um bom tempo. 10 anos? Mais? Não lembro.
Desde então é ela quem cuida de meu pai. Ele já passou por maus bocados em hospitais, o último há sete anos, quando sofreu um derrame. Desde então ele está um pouco mais velho do que deveria aparentar, um pouco mais lento e com algumas dificuldades motoras. Mas continua com velhos hábitos: acordar 5h da manhã, tomar café, sair, voltar para outro café às 9h, almoçar meio-dia em ponto, tomar outro café às 15h, e outro café às 18h, jantar às 20h e dormir no máximo às 21h. E quem cuida dessas regras todas? Sim, minha vó.

Minha mãe, se alguém tiver a boa vontade e permitir, acorda às 7h, 8h. Foi o que aconteceu no segundo dia em que minha vó estava no hospital. E onde estava meu pai? Descobriu cinco minutos depois, quando ele chegou carregado em casa. Resolveu ir comprar pão – já que minha vó não estava em casa para fazer pão caseiro – numa distância que vai bem uns três quilômetros. Caiu e os vizinhos recolheram. Ele tem saudade da velhinha.

A Vó voltou pra casa ontem, no final da tarde.
- Chegou, fuçou todo o guarda-roupa pra ver se não tinham tirado nada, deitou na cama dela e está dormindo um sono profundo, disse minha mãe.

Acho que ela também tinha saudade de casa, da casa da minha mãe que já é dela – aliás, minha mãe construiu uma casa nova depois que meu pai teve o derrame, uma casa térrea em que meu pai e minha vó se locomovessem com segurança.
Disso tudo só posso dizer que minha mãe que se cuide ou acaba aparecendo no Fantástico. A manchete?

“Mulher é abandonada pelo marido: ele deixou ela e fugiu com a sogra, de 93 anos”

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