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Amores Perros

Recentemente fui em uma mostra de arte na qual havia um painel com duas fotos. Na primeira, um mendigo dormia na rua, com as roupas sujas e as calças rasgadas, aparecendo as nádegas. Na outra um cachorro sarnento também dormia na calçada. Perguntei para a minha filha de sete anos de idade com qual dos dois ela se preocupava e ela foi categórica:
- Com o cachorro. Tadinho dele, né mãe?

Antes que a chame de sem coração, pense: de quem você tem pena em Amores Perros – Amores Brutos numa péssima tradução. Dos cachorros sendo atiçados para a rinha ou dos meio-irmãos largados com uma pistola?

A semelhança entre humanos e cães permeia a obra. O cachorro abandonado na rodoviária, o cão de luxo com a perna amputada e, é claro, o cão que acabou transformado em assassino de outros cães. Só que enquanto os bichos não constumam dizer a quem amam e o motivo, apenas demonstram amor incondicional, esses três nos contam suas histórias.

São histórias que se entrecruzam de uma maneira casual – marca do diretor Alejando Gonzáles Iñarritu que foi apresentada nessa sua primeira obra e continuada em 21 Gramas e Babel. Como cenário, um México de diferenças sociais e impunidade, onde um assassino está solto para o velório do irmão, onde empresários são assassinados à luz do dia, onde a televisão mostra a beleza da mulher latina, um encanto. As histórias partem de uma escolha de vida e terminam na conclusão dessa escolha. Histórias que mostram que o amor nem sempre é bom:

Seguro que alguna vez el destino te a cambiado la vida…
Si tu historia acabo bien, exlicalo en el canal de “amores”.

Si acabó mal, explicaló en “perros”

O filme levou Bafta de filme estrangeiro e prêmio da crítica em Cannes. Não levou Oscar nem Globo de Ouro em estrangeiro, era o mesmo ano de O Tigre e o Dragão. Como legado, mostrou Gael García Bernal para o mundo.

Voltando ao cão e ao mendigo, a menos que você não tenha coração, você não se importou com as brigas de cachorro ou com o cãozinho abandonado no buraco.

O bebê de Roman Polanski e Mia Farrow

Lembro bem das propagandas de O Bebê de Rosemary, filme que só passava na Sessão de Gala e criancinhas não podiam ver. Não pude ver.
Lembro da primeira vez que vi Mia Farrow em A Rosa Púrpura do Cairo e de como achei sua voz irritante.
Lembro, finalmente, da primeira vez que vi O Bebê de Rosemary e de como não causou em mim o terror prometido pelas propagandas da infância.

O Bebê de Rosemary não é um horror vulgar, não tem sangue, nem pessoas morrendo, nem mutilações. Além disso, para atingir sua plenitude, depende da fé do espectador, a conhecimento da religião católica, a crença em Satã, o medo do inferno e o pavor de um possível filho do Demo. Mas se uma mãe não acredita em nada disso, oks, ela vai ficar apavorada também. Enfim, revendo o filme o horror brotou. E juro, juro, juro, que não há uma cena, uma música, uma frase, uma atuação, um quadro, nada, nada, nada, que justifique um remake.

Impressionante é a atuação de Mia Farrow e de sua voz irritante e de sua fragilidade sessentista. Só de pensar que Polanski queria uma atriz mais americana, mais saudável, dá calafrios. Mia é tão perfeita que superei sua voz irritante – tudo nela me lembra Shelley Duvall em O Iluminado. Mas logo depois, no making of, já fiquei com raiva dela de novo. Que fique apenas no filme, Mia! Mas ok, admito que sua voz ficou maravilhosa na canção de ninar que embala o início e o final do filme. Pena o trailer não ter ela de fundo:

O que? Ficou curioso e quer conhecer a música? Oks, um passeio pela vizinhança do Dakota ao som de Mia Farrow:

Quanto a Polanski, bem, é eticamente inaceitável que eu fique dando audiência a um diretor pedófilo. Será que a genialidade pode superar a imoralidade? A educação católica que eu tive e que me deu o medo necessário para entender o filme também me faz sentir culpada nesse caso. Culpada ou não, assisti.

E por falar em educação católica, o que levou uma menina criada por freiras a casar com um pseudo-ator? Ê, vida! Esse ponto ficou fraco, ela não parecia tão apaixonada, nem parecia o tipo de garota que saiu do interior brigada com a família. Mas lá estava ela, em Nova Iorque, com o pseudo-ator, sendo uma boa dona-de-casa mas com um look bem modernete.

Quanto ao prédio, eu prometi não falar nada. Mas vá lá, novas gerações devem ler isso: o Dakota é o prédio onde Polanski filmou O Bebê de Rosemary em 67/68. Em 69 Charles Manson e seus seguidores mataram bem longe dali a mulher de Polanski, a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, ao som de Helter Skelter, música dos Beatles. E em 80, em frente ao Dakota, onde morava, John Lennon foi morto por Mark Chapman. Mais curiosidades? Mia Farrow mora ao lado do Dakota e atualmente Madonna é dona de um dos apartamentos do famoso prédio. Convenhamos, ele é lindo, não? E ainda sobre as fofocas de bastidores, Mia Farrow teve que escolher entre continuar filmando em Nova Iorque ou voltar para os braços do marido, o absolutamente maravilhoso Frank Sinatra. Sinatra dançou.

Acabou que a produção foi indicada a dois Oscar: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante. Só Ruth Gordon levou, e ainda faturou o Globo de Ouro pelo papel da bisbilhoteira/irritante Minnie Castevet. Lembra da velhota? Não? Ensina-me a viver, a fulanda de 80 anos que fez um fulano de 18 apaixonar-se por ela. Então…

Quanto à iconografia, o pôster original, o verde lá em cima, é muito bom. Mas esse polonês, vermelho, que achei na internet, desenhado por Walkuski Wieslaw também é demais. Muito sexy para Mia, certo? Oks, mas amei as cores e as sombras.

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