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Coração peludo

Eu lembro quando foi que a mágica se desfez, quando meu coração realmente foi estraçalhado. De todos os clichês que tomaram conta do meu corpo. O nó na garganta que não deixava passar nada para dentro ou para fora; as lágrimas que não cessavam nunca; a pedra que tomou o lugar do meu estômago; e o vazio que se instalou no meu peito.

Lembro que o nó, as lágrimas e a pedra duraram mais de uma semana. Mas o vazio, esse nunca foi preenchido.

Pensando nisso, não é difícil imaginar porque o conto do personagem que guardou o próprio coração em uma caixa para nunca mais se arrebentar de amor seja inspiração para tantas histórias.

Quanto ao meu, já juntei os pedaços, usei várias colas, costurei e vedei as frestas com durex. Alguns dizem que ele está inacessível e que criou pelos, como o do conto. Já eu, acho apenas que cansou de esperar e desfaleceu.

220v para 110v

Depois de 13 anos, deu de Floripa galera, estou de partida. Acho válido, então, fazer uma retrospectiva:

1996
- Cheguei em 2 de março de 96. No apê alugado tinha um rádio e uma tv velha que só pegava a Globo. Domingo, arrumando minhas 10 caixas, não entendi porque o Faustão tocava Brasília Amarela em tom fúnebre. Descobri rápido.
- Primeira festa: calourarte, uma recepção na Ufsc. Lá eu reconheci a Nathan – veterana que eu tinha visto na aula de rádio -, que me apresentou ao Botelho, que me contou como foi ouvir a notícia de quando tinha passado no vestibular – era o segundo Diógenes da lista.
- Gosto de lembrar que minha turma tinha muita mulher e por isso os veteranos davam muita festa e eu ia em todas. Assim, todas. Minha turma não ia, para desespero dos marmanjos. Em três meses eu conhecia todos os alunos mais velhos – e até ex-alunos. Me formei e não sei o nome de todos na minha turma.
- Mesmo morando em Floripa, estudando o que eu queria e indo em muitas festinhas, não curtia ficar aqui. Quem me convenceu a não desistir no primeiro semestre foi o Finco.
- Depois, a Paula, estudante de engenharia, foi morar comigo. Logo minha casa virou ponto de encontro de calouros da engenharia.
- Também tinha o futiba de terça à noite, que eu marcava para a galera do jornalismo.
- Os dois itens anteriores combinados geraram noites inesquecíveis – e inenarráveis – no Itambé.
- Depois eu comecei a namorar e virei uma moça séria (mais momentos inenarráveis…)
- Morei também com a Marcinha e a Carise. E não dá pra esquecer do Akilesh, que “morava” com a gente de sexta a segunda.

1997
- Entra a primeira turma de calouros depois de mim. Surpresa: tem gente bem mais legal do que muita gente da minha turma.
- Encerrando 96 e indo para 97, começo mal, morando numa pensão escrota cuja única vantagem era ser separada por apenas um muro da casa do meu namorado.
- Em julho, fui acampar um mês na sala da Megui, que estava num encontro de estudantes de comunicação em algum lugar sórdido na América Latina. Naquele tempo ela era só uma veterana muito legal, com quem eu me dava muito bem e tinha um coração do tamanho de um bonde. Acabou que eu fiquei lá por uns 3 ou 4 meses. Ela ficou bem feliz quando eu saí.
- Entrei no curso de história da Udesc e conheci mais gente maluca. Bem, tinha alguns malucos que eu já conhecia.
- Mais para o final do ano fui para o meu apê, lindo apê, e logo estava sublocando o segundo quarto para a Greice (0nde andará Greice?)

1998
- Entra uma turma muito bizarra no curso. Assim, muito bizarra. Hoje eu dia eu conheço uns ou outros, e eles até são bem legais. Mas eles eram freaks. Sim, Upiara, freak.
- Nesse ano eu comecei a andar com a Samanta, que era da minha turma. Essa foi a grata surpresa daquele ano.
- Em setembro (eu acho) meu namorado se formou junto com os últimos dinossauros da Ufsc. A foto daquela turma deve estar na parede da casa do Dalton, o secretário do curso a quem eu devo muito.

1999
- Definitivamente sem saco nenhum para o curso e agradecendo horrores ao Locatelli por não der deixado eu atrasar em um ano a minha formatura.
- A diversão era jogar war ou 1914 na casa dos outros.
- Lembra da Megui ali em cima? Então, topou passar 3 meses no Pará comigo fazendo o Trabalho de Conclusão de Curso. Lá nos descobrimos almas gêmeas.
- Na volta do Pará eu noivei. É, o mesmo namorado de 96, 97 e 98. Tem muita gente aí que se puxar na memória vai lembrar da festa-dilúvio.

2000
- Começo janeiro me formando. Fevereiro sem trabalho. Março entrando no Guia Floripa.
- Desisti completamente da História.
- Engravidei em julho, descobri em agosto. O pessoal do Guia não ficou muito contente, mas descobriu rapidinho que, em termos de trabalho, não fez grandes diferenças.
- Em outubro eu “casei”: fui no aeroporto buscar o noivo que estava voltando das paraolimpíadas da Austrália (ele foi cobrir, é bom deixar isso claro) e levei ele pra casa.

2001
- Vamos direto para abril, quando nasceu a Cecília. Eu nunca, nunca, nunca, nunca, nunca mais fui a mesma – e não foi só porque eu tive parto normal não.
- Curiosidade: quem cobriu minha licença-maternidade foi a Camille Reis, isso, aquela do Estúdio SC.
- Tudo que eu posso dizer daqui para diante é papo-fralda, como quando a Cecília apredeu a se esconder atrás da fralda de pano, aos 10 meses, na viagem para o Rio de Janeiro. Vou poupá-los.
- Mentira, vou falar de bebês: Cecília foi para a Dinâmica Baby.
- Foi o final de ano da Joaquina: ia todas as manhãs pra lá com a bebê.

2002
- Em fevereiro, estou grávida de novo. O pessoal do Guia Floripa gostou menos ainda. Mas eu fiquei feliz pra cacete.
- Update 1: entrei numa lista de discussão para grávidas e conheci um monte de mãe maluca como eu. Sou muito amiga de várias até hoje.
- Separei pela primeira vez. Isso mesmo. Com um bebê. Grávida. Separada. Voltamos em 5 ou 6 meses.
- Cecília saiu da Dinâmica e foi para o Flor do Campus.
- Três meses depois, saiu de lá e foi para o Arcângelo.
- Em outubro, nasce o André. Sabe tudo o que eu aprendi com a Cecília? Não se aplica.
- Mais papo fralda.
- Fui morar com a sogra, que tinha recém-separado, e aluguei meu apê para os chefes.
- Foi o final de ano do LIC: piscina com os dois era mais fácil.

2003
- Minha vida é toda crianças. Não por necessidade, por gostar mesmo. Amava ir ao parque de manhã, amava fazer papinhas, amava trocar fraldas…
- Mentira, minha vida era o Guia também.
- Vida social: zero.
- Exceto pelas reuniões no Arcângelo, agora que tinha dois bebês lá.
- Não, acho que foi nesse ano que conheci a Érica e o Rico. Aqui minha memória começa a falhar, juro. Mas foi tão legal, mas tão legal, que parece que a gente se conhecia havia séculos. Eles tinha a Celina, que se deu muito bem com as crianças. Foi um tal de se juntar para beber e conversar enquanto elas brincavam que durou muito tempo.

2004
- Fiz uma reforma linda no meu apê. Voltei pra lá em junho ou julho, não lembro.
- Minha vida continua toda crianças.
- Final do ano o casamento, com aquele noivo, que foi aquele namorado, acabou. Tá, ninguém levou muito a sério.

2005
- Deixei o Guia Floripa e fui para o finado clicNessa.
- Cecília e André saíram do Arcângelo e foram para a Sarapiquá.
- Cecília e André saíram do Sarapiquá e foram para a Casa Amarela.
- Reatei antigas amizades do curso, como a Ana e a Gi. Me aproximei da Karla, que eu conhecia muito superficialmente do Esporte do DC. Conheci, também, muitas outras pessoas do DC.

2006
- O clicNessa foi substituído pelo hagah.
- Mudei daquele apê lindão para o Rio Tavares. Longe que doía. Lindo que acalmava.
- Passava as manhãs na praia e trabalhava à tarde.
- O então chefe Fabiano saiu da redação e começou os períodos turbulentos.
- Em outubro, aumentou a carga horária. Nada de praia à tarde.

2007
- No hagah, arrebanhei uma galera legalzinha, minha “banda”: Rodrigo, Leo, Beto, Elisa e Felipe – o estagiário.
- Ex vai embora para Sampa.
- Cometi erros profissionais inacreditáveis.
- Independente deles – e bota independente disso – as turbulências aumentaram.
- Cecília e André saem da Casa Amarela e vão para o Sesc.
- Vida social continua zero, exceto por encontros na casa do Rio Tavares, conhecido algum tempo como Bar da Boa.
- Entra o dc.com, mais turbulências.
- Sangue novo no clic: Michele, Maykon, Fê.
- Festa de Ano-Novo baita lá em casa.

2008
- Começa bem, com promoção para o clicRBS.
- Primeira contratação do hagah que eu participo só como ouvinte: Dani. Depois, nem mais como ouvinte.
- Update 2: conheci a Verde Velma Gica que veio de Blumenau para Florianópolis e daqui para Sampa. Pecinha bem importante nessa história toda, com lavagem cerebral e tals. Logo serei vizinha dela.
- Em algum momento desse ano a Érica e o Rico vão para Vitória e, puxa, eles fazem muita falta.
- Cecília sai do Sesc e vai para o Imaculada. Deco segue no Sesc.
- Mais uma contratação para o clic: Alexandre. Fica menos do que devia, é verdade, mas mais do que eu esperava.
- Com a saída dele, a Sabrina, que era da minha turma e tinha ido para Porto Alegre quando eu entrei no clic, volta.
- Festinhas no Rio Tavares ficam mais escassas. E eu fico sem saco de ir em outras festinhas. Floripa começa a ficar muito, mas muito chata mesmo.

2009
- É ano para outra retrospectiva.

Fora de brincadeira, é isso mesmo: 2009 já pertence a Sampa. E agora sabe-se lá quando eu vou sentar para fazer uma retrospectiva meia-boca como essa.

Blogs e amigos

Se tem uma coisa que eu me amarro, é blog diarinho. Sou uma voyeur compulsiva nesse sentido. Leio, claro, os blogs dos amigos – exceto os de poesia, não me odeiem, não é nada pessoal. Dou risadas, vejo fotos, leio histórias e, na maior parte das vezes, não comento.

Mas leio também blogs de desconhecidos. E, quando gosto do estilo, das histórias, das alegrias, das tristezas, viro habitué. É terrível. Eu conheço o que aquela pessoa mostra que é, eu sei de suas mágoas, compartilho suas angústias, vibro por suas alegrias e… não faço a mínima idéia de quem é realmente. É quase como ler o Diário de Anne Frank, só que em tempo real e sem saber que o final não é feliz. Quando um desses blogs some, eu sinto que perdi um amigo.

Uma amizade unilateral, já que também nunca comento, como fosse um amor platônico.

Isso deve ser doença, não? Ou pura carência?

Ana e as baratas

Chove há semanas em Florianópolis e isso me baixou o astral e me jogou em tal torpor que eu me sentia como se estivesse em Joinville em 94. Não, 94 não foi um bom ano. Minha casa e meu carro são um espelho do que eu deixei acontecer na minha vida. Bagunça e sujeira. Bagunça na casa e sujeira no carro, melhor frisar essa parte. Mas sempre tem algo que me tira do torpor. Dessa vez foram baratas.

Cheguei em casa domingo à noite, após um final de semana extremamente cansativo e encontrei elas já na entrada, olhando para mim. Vendo que não tinha veneno por perto, demoraram para engendrar uma fuga. O que elas não sabiam é que eu com um chinelo na mão eu sou muito mais mortal que qualquer frasco de Baygon.

Antes de dormir avaliei meu ostracismo, minha decisão de ficar no esquema casa-trabalho-casa, de deixar várias coisas para depois, de estar sempre exausta – física e mentalmente – demais para qualquer coisa, qualquer palavra, qualquer programa. Foi o que bastou para retomar minha vidinha de sempre, a começar pela caixa de gordura, agora devidamente limpa e dedetizada. Os próximos passos serão o carro e o jardim.

E logo minha casa estará aberta às visitas, como eu sempre gostei, como sempre me fez bem.

Estatística lastimável

Desde que comecei a postar aqui eu resenhei dois livros. D-O-I-S.

Em primeiro lugar, esse número pífio é resultado de uma convicção pessoal: só resenhar livros dos quais eu tenha gostado – ou odiado tanto que valha a pena gastar digitais no teclado. Mas isso é uma meia-verdade. Pelo que eu me lembre, aí entram mais dois.

Pífia também é a atitude de começar e não terminar. Mas aí volto a falar de outros dois.

Junte a tudo isso os dois exemplares que comprei num sebo semana passada e agora ornam meu criado-mudo e, tcharam, toquei em oito obras desde que iniciei aqui.

Vergonhoso!!!

Nota pseudo-adolescente: mas agora eu tenho mobilidade total e acesso a internet da minha cama quentinha. Não leio mais livros mas leio muito na web. Por exemplo, ontem eu passei pelo menos uma hora lendo tudo sobre os atores de Harry Potter. E não é que a guria é mesmo CDF, o ruivo é mesmo tanso e o protagonista é mesmo metido a indie?

Mulheres mudam para agradar aos homens

Quantas vezes você já ouviu isso? Quanta vezes você já xingou isso? E quantas vezes você abriu mão de uma saída com as amigas por isso? Pois é, mulher, quando ama, abre mão. O segredo (que poucas, raras, talvez até nenhuma saiba) é dosar essas mudanças.

E eis que ontem o homem que mora na minha casa quis que eu mudasse. Não meu jeito, que ele adora, nem minhas roupas, que ele acha bonitas, nem meu perfume. Quis que eu mudasse um hábito, para não dizer vício.

- Mãe, é o seguinte. Se você fuma, a fumaça entra em você e te faz mal. Aí você fica doente e morre. E eu não quero uma mãe morta. Você TEM que parar de fumar.

É isso aí. Eu tenho que parar de fumar.

Quando o subconsciente resolve ser sádico

Sexta-feira eu estava um desânimo só. No sábado, com o pior mau-humor da face da terra. Ontem mesmo eu estava completamente blargh, só o Brasileirão conseguiu arrancar algum sopro de vida desse ser inanimado. Em comum, nos três dias eu estava me sentindo absolutamente solitária, com uma vontade infinita de passar o tempo todo deitada ouvindo Smiths e chorando. Talvez levantasse para ver um filme, desde que fosse uma história de amor bem infeliz, tipo Doce Novembro.

Tentei lembrar a última vez que eu me senti assim tão tragicamente com pena de mim mesma e não consegui. Tentei pensar em algum motivo, mas os que apareceram foram tão tênues que seriam incapazes de causar resultado tão avassalador. Por fim, botei a culpa nos hormônios, sempre eles.

Hoje de manhã, na casa da sogra, perguntei se ela sabia que dia era hoje. Esperava que ela dissesse que não para eu responder: meu penúltimo dia de trabalho antes das férias. Mas não, ela respondeu corretamente:

- 30 de junho.

A resposta foi um tapa na cara. É isso, 30 de junho. Eu esqueci completamente o dia, pela primeira vez em… deixa pra lá, mas os efeitos colaterais estavam todos lá. Lembrei a última vez que me senti assim tão desgraçada: exatamente há um ano atrás. E pensar que essa data que já me deu tantas alegrias agora só serve para me esfregar na cara o grande, enorme e retumbante, o maior fracasso da minha vida.

Bem, mas esquecer a data talvez já tenha sido um avanço. Agora só falta parar de me sentir uma lata de lixo por essa época.

Empoeirada

Sei lá, eu gosto de coisas velhas. Revistas velhas, por exemplo. Devorei esse final de semana uma Hype de agosto de 2004. Antiga? Nada. As melhores matérias foram uma lista de álbuns de 1994 e uma entrevista com Morrissey.

Não que eu nunca tivesse percebido isso, mas sim, sou uma velharia ambulante. Ouço bandas antigas, leio livros antigos e vejo filmes que já saíram de cartaz há muito tempo. Acho que a produção cultural é imortal e gosto de dar um tempo, uma distância, para certas coisas. Mas isso faz de mim uma pessoa meio démodé, não?

Bem, tanto faz. Hoje foi um dia horroroso, ontem foi um dia péssimo e eu não tenho muitas esperanças sobre amanhã.

A entrevista com Morrissey está bárbara, quem sabe eu fale dela aqui outra hora. E falando nele, uma homenagem a essa nuvem negra que não me larga:

31

Lembro que no ano passado eu estava muito bem ao completar 30 anos e entrar no time das balzaquianas. Mas acabou que não fiz nenhum post, nada sobre o assunto. Parece até que eu estava mais feliz em fazer a contagem regressiva para a data, como mostra meu post no fotolog quando completei 29.

E agora, 31. Parece besteira, mas esse um está pesando. Mais do que o três na frente – começo mesmo a achar o dois mais charmoso – o um atrás está incomodando. Não que eu ache ruim ter trinta e poucos. Não, trinta é experiência, é ter assunto nas rodas de conversa, é saber o que se quer da vida. Mas, sabe? Trinta e poucos em Florianópolis está ficando difícil.

Cada vez mais eu estou cercada de jovens. Se por um lado eu gosto da energia e das novas idéias, por outro eu detesto falar com pessoas que não têm as mesmas referências que eu.

Esse um aí, depois do três, está fazendo eu me sentir a coroa da festa de ontem, saca? E eu não estou encontrando as pessoas de 30 nesta cidade. Acho que debandaram. Ou estão escondidas em casa, também se sentindo as coroas da festa.

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